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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Livros

Bom dia!

Esses livros foram comprados hoje, na Feira do Livro da USP! Somando tudo, deu cerca de 200,00.

A feira vai até amanhã ainda, então, para quem está na região, compensa dar uma passada :)


Fiquei muito feliz de conseguir completar minha coleção do As Máscaras de Deus. Na verdade, foi com esse objetivo em mente que eu fui lá. Também queria comprar algumas coisas de Aristóteles, para estudar as questões de ética, amizade, etc. Como vocês podem ver, acabei comprando uns livros sobre issi na Odysseus.

Agora, de novidades: Eu não conhecia essa edição da EDUNESP dos hinos homéricos! Ela foi lançada esse ano (2010), parece uma Bíblia :) É biligue, tem 574 páginas, capa dura, os hinos estão separados pelos deuses aos quais se referem, e parece que tem alguns ensaios e textos junto, mas eu ainda não examinei em detalhe. De qualquer modo, ao menos à primeira vista, parece ser uma edição extremamente cuidadosa. R$80,00 no mercado, 40,00 na feira!

Também não sabia que tinha sido publicada, pela editora da unicamp, a tese de doutorado do prof. José Marcos Macedo, que foi meu professor de língua grega na USP, e é muito bom. O livro se chama "A palavra ofertada: Um estudo retórico dos hinos gregos e indianos."

Bastante coisa interessante para ler em 2011!

domingo, 24 de agosto de 2008

Abelhas, parte III

Encerrando a pesquisa sobre abelhas, pensei em que relações poderia traçar com o mito grego, e logo me lembrei de duas histórias: a de Deméter e Melissa (que provavelmente tem relação com a coisa dos mistérios de Eleusis, que foram mencionados no texto que traduzi no primeiro post), e a lenda de Aristeu, que é o cavaleiro de ouros no tarot mitológico. Fuçando um pouco na internet achei algumas coisas interessantes, como a moeda ao lado, que foi cunhada em Éfeso em algum momento entre 405 e 325 antes de cristo. (se quiser ver mais moedas cunhadas em éfeso clique aqui).

Prá ser bem sincera, nem procurei muito sobre a coisa de Melissa. Lembrava muito bem que a Inês tinha recontado a lenda de modo maravilhoso. Para quem perdeu, está aqui. As ninfas que cuidavam das abelhas também se chamavam Melissae.


Quanto a Aristeu, encontrei as coisas mais interessantes: Ele era filho de Apolo e de uma ninfa do oceano chamada Cirene. Como seu pai, era um civilizador. Aprendeu com as ninfas por quem foi criado como fazer o queijo, criar abelhas para fazer o mel e como cultivar as oliveiras para de seus frutos extrair o óleo. Depois, espalhou esses conhecimentos por diversas regiões. Casou-se com Autonoe, filha de Cadmo e Harmonia, e assim foi pai de Acteon (o caçador que Ártemis pune por tê-la visto nua). Dentre outros feitos, acabou com uma praga conseguindo, através de Zeus, o favor de certos ventos benéficos, e foi iniciado nos mistérios de Dionísio, deus com o qual teve um longo relacionamento.
O episódio mais conhecido de sua vida é, no entanto, relacionado à sua criação de abelhas: Certa vez, toda a sua criação morreu subitamente. Então, ele chamou sua mãe Cirene  e lhe pediu um conselho. Ela lhe disse que ele devia perguntar a Proteu, o velho do mar, por que aquilo havia acontecido, e qual era o meio de remediar. Conseguir uma audiência com Proteu, no entanto, não era nada fácil, como Ulisses também descobriu em suas jornadas: Era preciso esperar até que ele começasse a descansar ao sol do meio dia, e o prender. Então, Proteu se transformaria nas coisas mais horrendas, tentando amedrontá-lo para que o soltasse, mas ele precisaria resistir brevemente, até que ele tomasse a forma verdadeira novamente, e, então, ele responderia as perguntas.
Proteu disse a Aristeu que as abelhas haviam morrido por causa da tentativa de rapto a uma donzela, que havia fugido dele se embrenhando pela mata, e havia morrido pela picada de uma serpente. As ninfas haviam se enfurecido com ele por conta do ocorrido, e ele deveria fazer um sacrifício expiatório. Ele matou quatro touros e quatro vacas, e, passado um tempo, das carcaças dos animais sacrificados surgiram novas abelhas. Segundo Bullfinch, a donzela a que se refere a lenda é a Eurídice, de Orfeu.

Por todos os bens que fez aos humanos, estes começaram a cultuá-lo, e, por isso, ele foi divinizado. A figura de Aristeu foi, então, identificada à de dois deuses primitivos e antiquíssimos: a de Melisseus, um antigo titã que regia o mel, e a Astraios, outro titã, que foi o marido imortal de Eos, de quem ela gerou os Ventos. (fonte: Theoi project)

somando tudo isso, talvez a picada seja uma ajudinha um pouco dolorida dos meus deuses para ver se eu consigo levar o meu trabalho... tomara!

sábado, 29 de março de 2008

Mêmnon

Contarei a história do embate entre Mêmnon e Aquiles, dois guerreiros de igual dignidade, um dos feitos heróicos da Guerra de Tróia. A chegada de Mêmnon, rei da Etiópia, se deu depois da morte do nobre Heitor, e, por isso, não foi contada por Homero em sua obra.
Quando a gloriosa Tétis, filha de Nereu, soube que Mêmnon chegara, com um exército de milhares de homens, para reforçar a defesa de Tróia, ordenou que seu filho Aquiles fosse imediatamente avisado, e ao rei dos mirmidões foi enviada a seguinte mensagem:
"Nobre guerreiro, acautele-se, pois tens um novo desafio. O jovem filho de Titonus de Tróia e da própria Eos, da prole de Hipérion, reforça as fileiras do exército dos filhos de Príamo. Note que, como tu, ele também foi gerado por mãe divina, apesar da paternidade mortal, sendo reconhecido nas terras que reina como o melhor dentre os guerreiros dessa geração. E, como tu, Mêmnon porta lança e espada, armadura e reluzente escudo, todos forjados por Hefesto, o imortal ferreiro."
Tétis estava apreensiva pelo destino de seu filho, tanto quanto Eos Hemera, a senhora da luz, que seria conhecida por todo o ocidente como Aurora, pois ela não dedicava menos amor aos seus filhos mortais que aos imortais, os ventos e as estrelas. E, tão logo a presença da deusa tornou róseo o céu, o filho dela estava armado e pronto para romper as fileiras dos gregos. Em seu carro, ele atacou o centro do exército inimigo com os melhores homens dele, e esse embate foi desfavorável para o exército grego, que perdeu muitos homens.
Com a noite veio a trégua, e, discutindo sobre o que acontecera, os gregos decidiram que restava apenas uma saída, para evitar que os danos fossem ainda maiores: Um dos mais fortes dentre os capitães deveria desafiar Mêmnon para um combate de um contra um, enquanto outros homens de igual coragem lhe dariam apoio, para garantir que nenhuma deslealdade fosse cometida. No entanto, antes que eles conseguissem executar esse plano, Mêmnon matou Antíloco, filho de Nestor, e este, muito abalado com a morte do filho, dela se lamentou perante Aquiles que decidiu, contrariando os pedidos de cautela da parte de Tétis, resolver o problema com as próprias mãos.
Aquiles se moveu na direção de Mêmnon, e a simples visão de seu carro causava temor nas hostes troianas. Chegando perto do rei dos Etíopes, Aquiles atirou uma pedra no escudo de seu adversário, e o desafiou. As nuvens estavam escuras sob as praias da Ilion sitiada.
No olimpo, os deuses reunidos na corte de Zeus fizeram silêncio ao ver que logo se iniciaria o confronto entre o filho de Tétis e o filho de Eos. Os olhares das duas deusas imploravam a Zeus por misericórdia em relação a seus filhos, mas este, profundamente pensativo, ponderava sobre a situação, decidindo qual dos dois sobreviveria, e qual das duas deusas prantearia primeiro pelo filho morto.
Aquiles lutava em igualdade com Mêmnon, e nenhum deles demonstrava sinal de cansaço ou fraqueza, quase como se aquela batalha fosse entre dois imortais. Um grande círculo de guerreiros de ambos os partidos observava, e todas as hostilidades cessaram, esperando o fim daquela luta.
Quando o destino foi decidido, a vida de Mêmnon se foi sob a espada de Aquiles. E muitos, mortais e imortais, sentiram tristeza pela morte do filho da senhora do amanhecer. Sobre uma poça de sangue, tombou Mêmnon, ao lado de tantos outros guerreiros mortos.
Os combates cessaram, com a retirada dos troianos, e todo o céu parecia mais escuro. Com suas asas brancas, Eos desceu ligeira à terra, e envolveu o corpo de Mêmnon em uma névoa prateada, enquanto os Ventos o levaram para as margens de um rio das proximidades. Alí, Eos tomou o corpo do filho em seus braços e o pranteou, cercada pelas Horas, Plêiades e outras divindades que lhe eram caras, e igualmente expressavam sua dor pela perda do jovem; depois, Memnon foi pranteado e queimado por seus homens, os etíopes.
Alguns dizem que Eos transformou os mais nobres dentre os etíopes em pássaros, que voltam, todos os anos, no aniversário da morte de Mêmnon, ao local onde ele foi pranteado e relembram a morte dele. Outros dizem que quando caminhamos pela grama de manhã bem cedo e ela está molhada, isso acontece porque até hoje Eos continua a prantear seu filho.



Imagem: Eos e Memnon, cerâmica ática, aprox. 480 a.C. Museu do Louvre. Extraída de Wikimedia commons.

Acredita-se que esse tipo de iconografia de Eos segurando o corpo de Memnon tenha inspirado imagens de Maria segurando Jesus Cristo morto.



Recontado por: Lórien

Fontes consultadas: Thomas Bulfinch, O livro de Ouro da Mitologia, ed. Ediouro; Theoi Project

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Telemaquia - com um conselho para uma amiga

Ia blogar sobre outra coisa. Essa nem era tema de blog. Mas se fez necessário.

Há umas duas semanas atrás, Chronos me contava uma visualização. E eu, empolgada, e meio sem pensar no que dizia, soltei um "como Proteu?". Chronos não conhecia a lenda. Deixei prá ler prá ele depois, da Odisséia, para ele não perder o que dizia.
E quarta à noite me lembrei disso. O primeiro exemplar da Odisséia que veio à minha mão, pois tenho uns três, foi justo a que eu estudei em 2002, cheia de anotações de uma época em que julgaria muito imaginativo aquele que me dissesse que eu ainda ia cultuar os deuses sobre os quais estava lendo.
Achei a citação sobre Proteu muito mais fácil do que imaginava. Achei que ela estivesse depois da parte sobre Circe, e fosse Odisseu quem tivesse se deparado com ele, mas era Menelau quem contava a Telêmaco, ainda na parte incial da Odisseia, a tal Telemaquia do título.
Acontece que o Velho do Mar logo se tornou uma preocupação secundária, uma vez que eu comecei a ler os trechos que eu havia marcado, e minhas observações, tão sucintas, mas tão cheias de significado. E ver minha energia, de quando era seis anos mais jovem do que sou hoje, ainda impregnada naquelas páginas. Foi bem difícil me desgrudar do livro por algum tempo.

Fui lavar a roupa e a louça, agora há pouco, e acabei começando a pensar em algo que lera a pouco. Uma amiga minha havia escrito sobre sua relação com uma determinada divindade. Saber como se aproximar de uma divindade nunca, nunca é fácil, mas se torna ainda mais difícil quando é uma divindade lembrada por poucos, e cuja presença inspira uma veneração muito profunda. E, então, me lembrei de um trecho, que posto aqui. Serve como conselho para ela, e para todos nós, em diferentes situações.

"E eles chegaram a Pilos, a imponente cidade de Neleu.  (...) A tripulação enrizou a vela e enrolou-a, ancorou o navio e desembarcou. Telêmaco também desembarcou, depois Atenéia [ disfarçada como um mortal chamado Mentor], que rompeu o silêncio, dizendo:
-Não deves mostrar-te envergonhado, de modo algum, Telêmaco. Sabes porque fizeste esta viagem: para saber notícias de teu pai (...) Vamos, pois, procurar logo Nestor: vejamos o que ele realmente pensa e sabe a respeito. Deves tu mesmo falar a Nestor, e pedir-lhe para dizer-te toda a verdade. Ele tem muito bons sentimentos para enganar-te.
Telêmaco replicou:
-Como posso ir cumprimentá-lo, Mentor? Não tenho prática de pronunciar discursos corteses. Além disso, um hovem deve se mostrar tímido quando se dirige a um homem idoso,
Encarando-o com seus olhos penetrantes, Atenéia retrucou:
-Pensarás algumas coisas sozinho, Telêmaco, e outras coisas Zeus colocará em teu espírito. Creio que não naceste e foste criado sem as bênçãos do Céu."

Homero, A Odisséia (em forma de Narrativa). 17a. Edição, Ediouro. Canto III.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Panteões diferentes convivendo juntos?

Saudações!

Um post da Inês causou polêmica sobre a mistura de deuses de panteões diferentes. Eu já resvalei na minha opinião sobre o assunto neste e neste (também polêmico) escrito, mas nunca cheguei a dar uma opinião mais direcionada e profunda. Então, aí vai:

Em princípio, eu não aprendi nada com ninguém que siga, ou tenha seguido, o mesmo caminho que o meu. Li sobre o meu caminho, mas o aprendizado prático e/ou de convívio físico, foi todo com pessoas que seguem caminhos diferentes, e eu agradeço muito essas pessoas,e honro o jeito que fui, intencionalmente ou não, ensinada (pois a maioria dos que nos ensinam não têm a meta explícita de nos ensinar; eles estão vivendo a vida deles, e acabamos aprendendo com seus exemplos). Isso por sí só seria motivo para mim honrar, pelo menos, os quatro festivais celtas.
E, bem... Eu sou casada com outro neopagão, mas que não segue a mesma linha que eu. O Chronos pratica o druidismo, e eu cultuo os deuses da Grécia. É impossível para mim ignorar a existência do altar dele como a pimeira coisa que olhamos quando acordamos de manhã, assim como é impossível para ele que o meu altar para Héstia não seja a primeira coisa que ele olhe ao chegar em casa.
Há quem diga, mesmo entre praticantes extremamente sérios e conceituados do druidismo que é possível praticar o druidismo honrando deuses de outros panteões. Mas essa NÃO é a minha opinião. Eu já estudei um pouco de druidismo (nem metade do que eu gostaria), mas nunca vai ser o meu caminho. Não funciona assim comigo, apesar de eu usar muitas influências do druidismo nas minhas práticas.
Isso porque os meus deuses têm outras demandas. Meu conceito de ritual é muito mais solene, exige preparações e práticas que não necessáriamente são necessárias no druidismo. Ao mesmo tempo tem coisas importantes lá que não são importantes para mim. Então uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.
No entanto, isso continua não impedindo em nada que eu celebre com o Chronos e outras pessoas que conheço que seguem o druidismo, nem que o Chronos ou quem quer que seja celebre os meus deuses comigo, mesmo se guiando por panteões diferentes. Inclusive, dependendo do caso, dentro de uma mesma celebração.
Só é importante distinguir uma coisa da outra. Perante os celtas, ou os nórdicos, ou os deuses afro-brasileiros (nunca assisti um ritual a eles, mas morro de vontade!), eu sempre me sentirei uma estrangeira, e me portarei como minha cultura diz que um estrangeiro deve portar-se: Respeitando os costumes de quem hospeda, sem jamais desprezar a hospitalidade, mas também sem trair meus preceitos.
Se para mim realizar um ritual exige preparações de purificação, não iria para qualquer ritual sem preparo, mesmo que para a religião "do outro" isso não seja necessário porque (como alguém disse em um reply a um dos posts que mencionei lá em cima) para ela tudo é rito. Para mim os deuses estão em todos os momentos de nossas vidas, e em todos eles lhes glorifico, mas existem momentos mais especiais, que são as celebrações, e  essas festas para os deuses  exigem cuidados muito especiais. Se eu não me apresentaria suja em uma festa dedicada aos deuses a que honro, não seria um desrespeito fazer isso perante os deuses honrados pelos meus amigos?
Sempre ao ir a algum ritual de outra cultura, me purifico como se fosse honrar aos meus próprios deuses, e, antes de sair, faço uma prece, avisando que estarei como estrangeira em terras de amigos (e nada mais familiar aos gregos que viajar, que ser estrangeiro e receber o estrangeiro - aliás, muitos de nossos deuses não são, em origem gregos, mas foram trazidos para o que se chama de Grécia Antiga, e assimilados e adaptados por essas populações), e reafirmo que não estou abandonando nada por estar ali. Desde que peguei esse jeito de me comportar, nunca mais tive problemas com o temido (e pesadíssimo) choque de egrégora, e conhecer o estrangeiro só me ajudou e acrescentou.
Quando celebramos de modo misto, seguimos tudo o que é necessário em ambos os modos de celebrar: Eu faço libações e oferendas como meu costume, e o Chronos, que é quem em geral celebra comigo de modo misto, conduz as preces necessárias pelo costume dele. E vamos indo bem assim, sem perder em profundidade, e sem se desrespeitar.

Uma coisa que gosto de lembrar sobre esse assunto é que, para muitos dos modos de se cultuar os deuses da Grécia, mesmo deuses do nosso panteão são inconciliáveis. Já lí várias vezes pela Internet que se deve cultuar apenas os deuses do Olimpo, e que esse negócio de mecher com Titãs ou divindades pré-olímpicas no geral não dá certo, pois "as cargas deles são muito pesadas para que os humanos suportem", e coisas assim. Nem sempre tão nitidamente, mas eu mesma tenho separado: Ou faço um ritual aos olímpicos, ou celebro os titãs e os espíritos da natureza. Mas ainda estou estudando mais, para resolver esse problema na minha mente, pois ainda não sei se preciso, ou não, seguir essa ortodoxia. E mesmo para quem cultua só um panteão, tem aqueles deuses que vemos todo dia, outros em ocasiões especiais...
Vejo tantos problemas em pessoas que misturam panteões quanto os que vejo naquelas que não se informam sobre as individualidades de cada deus, mesmo que cultuando dentro de um único panteão, ou se contentam com informações superficiais. Nada contra alguém que cultue deuses de mais de um panteão, respeitando as particularidades de cada deus e sabendo separar as coisas quando a separação é necessária.

E, se assim não fosse, que direito teríamos de cultuar deuses que não são de nossas terras, sendo que todas as "mitologias" eram geograficamente localizadas? Assim, acho que precisamos tentar não tomar posturas radicais contrárias a determinadas práticas, sem checar a possibilidade de aprofundar nelas antes. O que deve ser criticado, e combatido, e lembrado como exemplo para não fazer, é a superficialidade e o desleixo de certas práticas, o desrespeito às particularidades de cada deus e de cada cultura, e a prática de coisas sérias como se fossem brincadeiras, sem o preparo e o estudo necessário. Como disse o Chronos ontem, "nesse ramo, pior que o mal intencionado só o mal informado".

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

O Olimpo

Estou preparando alguma coisa sobre parte do livro do Otto. Por enquanto, fiquem com essa belíssima descrição do Olimpo, que corresponde bem ao que eu imagino da terra onde moram os meus deuses

"Não é somente Hefesto que censura os deuses por tornarem-se discordes e deixarem-se perturbar em seus deleites por causa dos mortais. É o próprio Apolo que considera incompatível com sua dignidade lutar com seus semelhantes por amor aos homens. (...) Por mais solícito que possa ter-se mostrado um olímpio para com os homens e suas necessidades,sempre este filho do eterno retorna à glória do esplendor celestial. Lá nas alturas etéreas não há dores nem aflições, nem velhice, nem morte. No gozo de incorruptível juventude, beleza e majestade, eles andam pelo espaço brilhante de sua eternidade. Alí se encontram com seus iguais, irmãos e irmãs, amigos e amantes; um deus se deleita com outro, pois em todos, em cada um deles, está o esplendor da perfeição. É verdade que a predileção por certos homens e certos povos produz, às vezes, cenas violentas, mas a discórdia não dura muito, e nunca termina o dia sem que eles se reúnam festivamente para o comum desfrute de sua vida divina. Sabem muito bem que pertencem à mesma nobreza, a uma raça única cujos traços majestosos estão escritos no rosto de cada um"

FONTE: Walter F. Otto. Os deuses da Grécia. Odysseus, 2005.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

início de 2006 com um adendo à "jornada"

"Não terá sido a morte o primeiro navegador?
Muito antes que os vivos confiassem eles próprios às àguas, não terão
colocado o ataúde no mar, na torrente? O ataúde, nesta hipótese
mitológica, não seria a última barca. Seria a primeira barca. A morte não seria a última viagem. Seria a primeira viagem.

.......

Para enfrentar a navegação é preciso que haja interesses poderosos.
Ora, os verdadeiros interesses poderosos são os interesses quiméricos.
(...) O herói do mar é um herói da morte. O primeiro marujo é o
primeiro homem vivo que foi tão corajoso quanto um morto.

......

A morte é uma viagem e a viagem é uma morte. "Partir é morrer um
pouco." Morrer é verdadeiramente partir, só se parte bem,
corajosamente, nitidamente, quando se segue o fluir da água, a corrente
do largo rio. Todos os rios desembocam no rio dos mortos.

......

Assim, o adeus a beira-mar é simultaneamente o mais dilacerante e o
mais literário dos adeuses. Sua poesia explora um velho fundo de sonho
e de heroísmo."



BACHELARD, G. A água e os sonhos - Ensaio sobre a imaginação da Matéria. São Paulo, Martins Fontes, 1997, p 75-77.



quinta-feira, 14 de julho de 2005

Sobre Novos Mitos - L.Frank Baum (Introdução ao Mágico de Oz)


"O folclore, as lendas, os mitos e os contos de fadas
acompanham a infância através dos tempos, pois toda a
criança saudável adora histórias fantásticas e
manifestamente irreais. As fadas aladas de Grimm e
Andersen trouxeram mais felicidade aos corações
infantis que qualquer outra criação humana
Entretanto, os antigos contos de fadas podem ser
considerados hoje como "históricos" na biblioteca das
crianças, pois chegou a época de uma nova série de
"contos maravilhosos" em que gênios, anões e fadas
estereotipados são eliminados, junto com as aventuras
de gelar o sangue criadas por seus autores para
sublinhar uma moral terrível para cada conto. A
educação moderna inclui a moralidade, portanto, a
criança busca somente o divertimento em seus contos
fantásticos e dispensa todos os incidentes
desagradáveis.
Mantendo este pensamento em mente, a história do
"maravilhoso Mágico de Oz" foi escrita unicamente para
agraar as crianças de hoje. Pretende ser um conto de
fadas modernizado, em que o encanto e a alegria são
mantidos, enquanto os sofrimentos e pesadelos são
deixados de fora.

L.Frank Baum
Chicago, Abril de 1900."

in: O Mágico de Oz, Porto Alegre, L&PM, 2001.