Pois bem: Sempre que O Eremita me aparece entre as cartas que tiro no Tarot, me lembro de Assim Falou Zaratustra. Hoje estava escrevendo sobre a carta, e resolvi pegar o dito livro da estante e dar uma folheada no início Foi gostoso. Faz tanto tempo que eu ainda não tinha convencionado meus padrões para marcar no livro as citações importantes, de modo que viajar pela leiura anterior foi um pouco difícil.
Acabei transcrevendo uma série de trechos da primeira parte do livro, o preâmbulo. Se fosse prá adiante, ia acabar ficando muita coisa! Na verdade, ficou muita coisa sendo apenas a primeira parte. Então, para não me alongar com essas citações na minha lição de casa, como eu pretendia, posto tudo aqui.
(a edição é ruim: é o pocket book da Martim Claret)
"Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques, deparou-se-lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua sagrada cabana para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira:
-Este viandante não me é estranho: Passou por aqui há anos. Chamava-se Zaratustra, mas mudou. Nesse tempo, levava as suas cinzas para a montanha. Quererá levar hoje o seu fogo para os vales? Não temerá o castigo que se reserva aos incendiários? Sim: Reconheço Zaratustra. O seu olhar, no entanto, e a sua boca, não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um bailarino! Zaratustra mudou, Zaratustra tornou-se menino, Zaratustra está acordado. Que vai fazer agora entre os que dormem?"
"É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante."
"Não me compreendem; não. Não é da minha boca que estes ouvidos necessitam. Vivi demais nas montanhas, escutei demais os arriôos e as árvores, e agora falo-lhes como um pastor. A minha alma é sossegada e luminosa como o monte pela manhã; mas eles julgam que sou um frio e astuto chacareiro. Ei-los olhando-me e rindo-se, e, enuanto se riem, continuam a odiar-me. Há gelo nos seus risos."
"Um raio de luz me atravessa a alma: preciso de companheiros, mas vivos, e não de companheiros mortos e cadáveres, que levo para onde quero. Preciso de companheiros vivos, que me sigam - porque desejem seguir-se a si mesmos - para onde quer que eu vá. (...) O criador procura companheiros, não procura cadáveres, rebanhos, nem crentes; procura colaboradores que inscrevam valores novos ou tábuas novas. O criador procura companheiros para acompanhá-lo; porque tudo está maduro para a ceifa. Faltam-lhe, porém, as cem foices, e por isso arranca espigas, contra sua vontade. Companheiros que saibam afiar suas foices, eis o que procura o criador. (...) Colaboradores que ceifem e descansem com ele, eis o que busca Zaratustra. Que se importa ele com rebanhos, pastores e cadáveres?"
"Rogo, portanto, à minha altivez que me acompanhe sempre a prudência! E se um dia a prudência me abandonar - ai! Agrada-lhe tanto fugir! - possa sequer a minha altivez voar com a minha loucura."